15/09/2008

Falou Serra...

Bom, galera, hoje, véspera da prova de Micro, um temporal armando aqui bem à minha janela e eu acabei de chegar à seguinte conclusão aqui com meu colega Bruten de sala: as pessoas são péssimas. Nesse contexto, lembrei que nosso amigo Serra já deve estar pegando o avião neste extato momento. Aí pensei: há muito tempo não posto no blog, etc... Achei que valeria a pena deixar algums coisas registradas sobre esse cara ímpar que passou por esta faculdade e pela nossa turma. Espero que não fique parecendo depoimento de Orkut, porque isso é brega, mui brega.

Minha primeira recordação do Serra é na clássica palestra de abertura do curso, quando Lizinha, com sua voz esganiçada e neoclássica, começou a apresentar as disciplinas que nos conduziriam ao esplendor do conhecimento econômico. De repente, uma mão levantada: alguém pedia a palavra. Depois das apresentações do PET e da UCJ, eu não sabia o que alguém teria a acrescentar num momento como esse. "Se eu soubesse, naquele dia o que sei agora", eu não seria esse ser que chora e teria aberto minha torneira de asneiras contra uma série de aspectos... Heheheheh. Mas isso não vem ao caso: o fato é que éramos todos os mais absolutos ignorantes em matéria de Ciência Econômica. E eis que o nobre cavalheiro que pedia a palavra diz: "Nós vamos estudar os BRICS?" Um clima tenso de vergonha alheia se espalhou pela sala. E os alunos do Santo Antônio já sabiam com quem estavam lidando... Mas eu, como não pertencia à seleta casta deste excelente educandário, simplesmente me surpreendi com tamanha inconveniência.

Essa foi a primeira impressão. Mas a primeira impressão não é a que fica. Tudo pode piorar... Tivemos no dia seguinte uma aula de História Econômica Geral com o Prof. Alexandre, na qual ele indicou as duas primeiras referências bibliográficas a que tivemos acesso, ainda naquele bom e velho prédio da rua Curitiba. Salvo engano - corrijam-me se estiver errado - devíamos ler um texto do Carlos Lessa, uma palestra proferida na Unicamp, e um do Maurice Dobb, tirado do livro A Evolução do Capitalismo (o primeiro capítulo). Foi difícil para nós o texto, acostumados que estávemos com aqueles livros de história com gravuras... Não deixam de ser interessantes recordações assim meio nostálgicas ainda que isso só tenha ocorrido há um ano, mas voltemos ao nosso assunto. O Serra me apareceu na biblioteca Prof. Emílio Guimarães Moura, esbaforido e pão-duro como sempre, catando a todo custo o livro para que não tivesse, é claro, de tirar xerox do texto. Eu, procurando o livro, deparei com sua edição em inglês, que tive a idéia de pegar, já que as brasileiras estavam todas emprestadas. Indo para a fila do balcão de empréstimo, fui abordado pelo Serra: "Esse aí é o livro?" "Sim, em inglês." "Você vai ler em inglês?" Com aquele ar de eu-é-que-quero-ler-em-inglês. Respondi: "Ah, só tinha ele, vou ver se leio em inglês." Serra: "Eu QUERO ler em inglês, você não quer levar o meu não?", (ele estava com um em português nas mãos). Pensei: "Nu, esse aí é gosta de mostrar que é bom." E levei o livro comigo, depois de desconversar um pouco, que eu queria treinar um pouco inglês, etc e tal. Na verdade, eu não queria era entregar o jogo: afinal, um Luiz Felipe (ok, Serra, o seu é com I) vindo assim todo todo pra cima de mim... Fiquei, no mínimo, ressabiado...

Mas as coisas foram progredindo. Pouco a pouco, fui vendo que o Serra era algo parecido com um clone: ele tinha ido para a Alemanha, ele falava alemão, ele falava inglês, ele estudava economia. Éramos muito diferentes, mas ele parecia ter feito "tudo o que eu queria fazer!" Que saco... Não sei exatamente por que, mas por certas cargas d'água eu - e acho que aqui falo por vários deste blog e da nossa sala - fui passando a conviver mais com o Serra e ver que na verdade havia um cara legal por trás de toda a aparente empáfia. Na verdade, é porque ele era bom mesmo.

E nas aulas do Marco Flávio? Nossa, eu no lugar do McFlave já teria mandado o Serra escrever dez vezes no quadro: "sou neoliberal e devo rever minhas posições, porque o neoliberalismo está morto", no melhor estilo Maria da Conceição Tavares. Todavia, como diria o governador Milton Campos - a cargo da decrépita que está tendo muita dificuldade em saber se ele entra ou não (piada interna dicionário histórico, desculpem a digressão) - como diria o referido governador, em Minas, brigam as idéias e não os homens. Acho que essa idéia foi muito cara para que Serra e eu, como bons mineiros, eu da capital e ele da província (de Ouro Branco para Chicago, que upgrade), nos entendêssemos bem. Ainda que ele seja, na verdade, do enclave liberal no Texas... Vocês acreditam que, hoje, quando nós ligamos para ele para despedir e eu não perdi a oportunidade de zoar a escala em Houston (que ele ia fazer mas depois naum fez), ele me disse: "(...) um enclave liberal no Texas". Acho que minha emoção de "quem vê o amigo partir" me impediu de tentar compreender a besteira que ele falava. Isso porque, em se tratando de Texas, é besteira...

Como eu ia dizendo, as coisas foram caminhando, e aulas pra cá aulas pra lá, o Serra viajou conosco para Brasília (Amun), onde ele - é claro - foi o melhor dos melhores: ficava estudando "horrores", como diria a Camilinha, enquanto eu, Luiz Ângelo e a última fazíamos TOUR pelo eixo monumental. Ele ganhou o apelido de Ecofin e levantou ainda mais a delegação de RI da PUC Minas, renegando a sua "querida" UFMG. E já estava ficando amigo nosso, mesmo que sempre daquele jeito esbaforido, louco, sovina, chato, do qual sem dúvida sentiremos muita saudade.

E foi assim, sempre ao som de muita discussão, sempre com muitas surpresas (agradáveis ou não), que fomos nos aproximando do Serra, mas ao mesmo tempo em que fomos nos aproximando ele foi se acercando do poderoso império do norte, que suga tudo que de melhor temos, isto é, nossas cabeças. Permitam-me, galera, mas isso é MIGRAÇÃO DE CÉREBROS -(imaginem a Conceição Tavares falando) - isso é, basicamente, alguém - que CERTAMENTE poderia fazer muito pelo desenvolvimento, senão do país como um todo, ao menos da Ciência Econômica brasileira - começar a trabalhar para os interesses do capitalismo norte-americano!! Heheheheheh. Eu tinha que falar isso: e não se pode dizer que não haja algo de verdade nas minhas entusiasmadas declarações antiimperialistas. Mas o Serra sempre me forçou, como Hamlet a Horácio, a ver que há bem mais coisa entre burguesia e proletariado do que o que pode pensar a minha vã filosofia... A avidez pelo conhecimento, pelo conhecimento que nos torne capaz de ter alguma efetividade naquilo que fazemos, talvez não consiga se enquadrar em nenhum dos dois extremos. "Põe quanto és / No mínimo que fazes.", Fernando Pessoa recomenda. Há quem aceite a recomendação... Acho que não precisamos desejar tudo de bom, porque o Serra continuará aceitando isso.

Foram muitas discussões, muitas bebedeiras ótimas, até com minha mãe o Serra já discutiu mundos e fundos, sempre comigo alfinetando ao lado, com as minhas tiradas sarcásticas, que ele ficava querendo saber se eram de brincadeira ou sérias. Aí é minha vez de devolver: há mais coisa entre a brincadeira e a seriedade do que o que pode pensar a nossa vã filosofia. Hehehheheheh. Recentemente, descobrimos o Freud - talvez um dos únicos pontos em que Serra e eu concordamos sem ressalvas: o Freud é fantástico, com ponto especial pro narguilé de cogumelo podre, heheheheh. Não o Sigmund - sobre esse ele já me importunou até com teorias sobre o sono, e o diabo a quatro - mas o Freud lá do buraco perto do Belvedere, aonde - espero - teremos o prazer de ir juntos mesmo que Chicago o convença de certos absurdos que não conseguirei remover de sua cabeça...

3 comentários:

André disse...

é guten morgen, vc eh o rei da palavra, não me canso de falar isso...
foi bacana a pequena homenagem ao nosso amigo chicago boy... ele vai se dar muito bem la, e quem sabe um dia nao vem na face dar um curso junto com Professor Bruzzi (pronuncia tendendo a professor Crocco)

Steph disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Steph disse...

É Bruzzi, o Sierra vai realmente deixar muita saudade...
Já no semestre passado eu sentia falta de ver a porta irromper aberta às 8:30 da manhã, no meio da aula, e ver aquele menino grande, meio desengonçado, entrando na sala com as calças ou com uma de suas duas bermudas meio caindo, direcionando-se pra uma das primeiras carteiras. É claro que cinco minutos depois (quanto muito!) ele já ia dar seu pitaco na aula, não importa qual...
E os dois pães de queijo com um copinho de refresco, que o acompanhava após o recreio (que pra ele era sempre mais estendido do que o pra nós, reles mortais!)?!

Vou sentir saudades das piadas sem graça, das frases em alemão, da cara dele de boca aberta tentando receber alguma explicação...
Dos livros e/ou caderno que ele pedia emprestado na véspera da prova às 22:43 da noite...
É... Mesmo que nos ultimos tempos a presença dele tenha sido mais em pensamentos saudosos ou comentários maldosos (a rima aqui não foi intencional!), a ideia de que ele está longe, muito longe, num mundo melhor (ok, Bruzzi, pior... pior...), já é assustadora. Mais ao mesmo tempo, me deixa feliz saber que ele tá onde ele sempre quis, onde sempre sonhou, tendo aulas com todos os autores de livros de macro e micro! E, como eu disse no cartão barangoso, me deixa com a esperança de que essa historia que sonhos são impossíveis é pura balela! É só tentar...

E agora, só pra terminar ao melhor estilo serravítico de ser: "A de quê??!?!?!"

Beijos!