11/10/2010

Quero ser Juliette Binoche

Se um dia alguém me perguntasse qual atriz do mundo inteiro eu gostaria de ser, eu escolheria a Juliette Binoche. Além de seu indiscutível talento e simpatia,“La Binoche” é, na minha opinião, um ideal de beleza. Nada de beleza artificial ou plastificada, nada de Jennifer Aniston (li várias vezes nos últimos tempos, em diversas entrevistas, que a ex do Brad Pitt tem sido considerada a “mulher perfeita” por muitos homens, brasileiros ou não, o que me espanta: juro, acho ela até feia!). Falo de beleza humana, feminina.

Não que ela fuja muito do cliché de francesa elegante e chique: tenho a impressão de que Juliette está sempre bem vestida, mas sem ser sisuda, sem perder a alegria ou aquele ar despojado. Está sempre sorrindo, mas com um “quê” de melancolia, como se toda uma trama de um filme de Krzysztof Kieslowski tivesse acontecido cinco minutos antes da sessão de fotos ou da entrevista. Nessas ocasiões, a atriz fica concentrada, parece estar prestando imensa atenção no que lhe é perguntado, e sua resposta vem sempre carregada de uma espontaneidade admirável, outra característica que eu atribuiria à “minha” Binoche (quando recebeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante por “O Paciente Inglês”, em 1996, uma Juliette deslumbrante subiu ao palco e, com a maior das sinceridades, revelou não ter um discurso pronto porque ela – e toda a crítica especializada e bolsas de apostas – achava que a Lauren Bacall, de “O Espelho tem Duas Faces”, levaria o prêmio pra casa!).

E não é só sua beleza e personalidade que me fazem ter vontade de ser Juliette Binoche. Invejo muito a sensibilidade da atriz, sua leveza, seus gestos. Ela tem uma incrível capacidade de transmitir sensações universais a cada pequena ação, a cada olhar, a cada palavra. Suas personagens sempre deixam uma impressão familiar, como se qualquer outra mulher pudesse estar em sua pele, passando por aquelas situações. É só prestar atenção em suas atuações e perceber os instantes entre uma palavra e outra, o espaço deixado entre seus gestos e mesmo a expressão nos olhos da atriz. Parece que ela escolhe a dedo os filmes dos quais faz parte. E neles há Juliette em cada pedacinho...

Recentemente li uma polêmica envolvendo Madame Binoche, seu novo filme e o ator, também francês, Gérard Depardieu. Em uma declaração, o ator disse não entender o que todos viam na referida atriz, que segundo ele “não tem absolutamente nada”. Fiquei super intrigada com a resposta de Juliette, que afirmou não entender o porquê da agressividade pública do colega, devendo-se talvez a seu último filme, “Copie Conforme”, que seria provocador, sobretudo aos homens. Como boa admiradora da atriz que sou, além de grande entusiasta de polêmicas (hehehe), fui atrás do bendito filme. Por sua atuação em “Copie Conforme” (2010), do diretor iraniano Abbas Kiarostami, Juliette foi agraciada em Cannes com a Palma de Ouro de melhor atriz. Não vi as demais concorrentes, mas vi o filme este feriado e já tomo partido. Só há uma hipótese: Gérard Depardieu pirou.

Ok, pode ser também que o ator não entendeu o filme. Existe, aliás, grandes chances que isso tenha mesmo ocorrido, afinal de contas o filme é quase uma Babel: o diretor, iraniano, ambienta seu filme numa cidadezinha da Toscana, na Itália, sua atriz principal é francesa e o ator, inglês. Essa globalização latente é ainda mais intensificada ao longo do filme, que começa em italiano, passa a diálogos (bem densos) em francês, depois em inglês e, de repente, não mais que de repente, esses dois últimos idiomas se misturam loucamente. Confesso que no meio do filme pensei ter perdidos partes importantes, fiquei confusa e até voltei um pouco. E tenho a forte impressão que era exatamente isso que o diretor queria...

Uma cópia, seja ela fiel ou simplificada, seria tão valiosa quanto o trabalho original. Afinal de contas, não seria o original uma mera cópia da realidade? É mais ou menos ao redor dessa tese que gira o filme, cujo nome vem do livro do pesquisador inglês James Miller, que vai à Itália lançá-lo e é confrontado pela personagem de Binoche. Ela é uma francesa que há cinco anos habita na Toscana e que, meio que por acaso, tornou-se proprietária de uma pequena galeria de objetos arte, cópias e originais. Não concordando com a idéia do inglês, mas visivelmente encantada pelo autor, ela põe-se a questionar a obra, rodeada por uma linda paisagem que novela das 8 nenhuma foi capaz de mostrar. Os dois começam então a divagar sobre a vida, sobre a simplicidade das coisas e o que é realmente importante. O que inicialmente parece um flerte, torna-se conflituoso: é neste momento que começa a mistura de idiomas. Creio que o "turning point" é uma cena em um café, quando a donna italiana acredita estar diante de um casal. O inglês se retira para atender ao telefone, e Binoche não desmente o mal-entendido. À partir daí há uma espécie de jogo entre os dois, com alternâncias entre cenas de uma paquera intensa e de discussões de um casal em crise.

Obviamente, o filme acaba do nada e deixa no ar qual de fato é a natureza da relação entre os dois (espero não ter estragado aqui o filme de ninguém!). Mas mesmo revoltadinha, como se não tivesse sido incluida no assunto da rodinha, fiquei pensando na importância dos pequenos gestos... o que diferencia um gesto de amor de um de mágoa? Agressões pequenininhas, que podem não ter significado especial para quem as pratica, pode ter um sentido muito maior para o outro. E isso pode ser visto por diversas vezes no filme: é o marido que dormiu sem esperar pela esposa, é o vinho agressivamente servido, é não reparar no novo brinco e no batom, é não perceber o flerte, a atenção, os comentário, é não oferecer ajuda diante de um longo caminhar com salto alto. Bom, pensando nisso é que eu entendi porque Depardieu ficou tão incomodado. A atuação de Binoche preenche cada um dos 106 minutos do filme, sabendo oscilar o tempo todo entre a paixão e o desapontamento. E sempre, de certa maneira, alfinetando o universo masculino, nem sempre ciente do tempo feminino, infinitamente mais denso e complexo.

Mais uma vez, a atriz se superou. Os traços dessa personagem vão ficar pra sempre, como o fizeram os de muitas outras antes. Gérard Depardieu é um ótimo ator, mas será pra mim sempre o Obelix, enquanto Juliette Binoche é múltipla, e ao mesmo tempo, única. Em "Paris" (2008), de Cédric Klapisch (o ótimo diretor de "Albergue Espanhol"), ela é Élise, a linda mãe solteira e solitária, que cuida do irmão doente (Romain Duris, também do "Albergue") e mesmo briga com ele como se fossem crianças, numa cena de uma sensibilidade brilhante. É também Anna Barton, de "Perdas e Danos" (1992), chocante filme de Louis Malle, uma femme fatale, agressiva, perturbada, má. É Hana, a enfermeira romântica e sonhadora de "O Paciente Inglês"(1996). É uma imigrante da antiga Iugoslávia que vive na Inglaterra, que faz de tudo para proteger o filho e tirá-lo do mal caminho, em "Invasão de Domicílio"(2006), filme que se enquadra perfeitamente na categoria criada por minha mãe, "um drama com um homem bem bonito" (que, no caso, é ninguém menos que o Jude Law!). É Tereza, a jovem e inocente fotógrafa de "A Insustentável Leveza do Ser" (1988). É Vianne, de "Chocolate" (2000). É tantas outras, é qualquer uma. E quem me dera se fosse eu.