29/09/2009

Viagem à Europa

Pessoal,
mando algumas observações pelo blog... Tentarei postar de vez em quando...

Observações de viagem

1. Chegando a São Paulo, estava esperando as malas ao lado da esteira, quando escuto alguém atrás falando: “Ó é-lá”. Como bom mineiro, achei que fosse uma pessoa dizendo: “Olha ela lá!”, referindo-se à mala que vinha. Instantes depois, escuto a resposta: “É-vã-cá”. “Ela vem cá”, traduzi mentalmente. De repente, uma frase inteira “É lá-cauá alá na cá má!”. Não consegui traduzir. Olhei para trás. Lá estavam Ching-Ling, Ling-Ching e uma moça, talvez Ching-Li. Eu podia jurar que havia entendido o que eles falaram antes da imensa frase incompreensível!

2. Atrás de mim, um grupo de excursão para a Terra Santa! Que medo... A guia está combinando com a galera como será a divisão entre grupos e perguntando quem participará de um culto ou outro. Sâo evangélicos... Acabo de escutar que a Pastora Jussara está no banheiro. Medo-mór! Eles não se cumprimentam normalmente. Um casal chegou e eles vão apertando as mãos uns dos outros dizendo: “Paz!”, “Paz!”, “Paz!”, “Paz!”. Deus meu... Uma perguntou aqui: “Será que eu sou a única pastora indo?”. Outra respondeu: “Eu sou pastora também! Paz.” Paz, gente, pelo amor de Deus. Uma pergunta recorrente: “Quem foi que te batizou?”. Agora uma visão infernal toma conta de mim: um tanto de crente tirando foto em Jerusalém! O vôo deles vai para Roma e depois seguirão para Israel. Toda conversa no celular termina com, no mínimo, três améns e dois deus-te-abençoe. Desculpem, não se chama excursão aquilo que eles fazem: chama-se caravana. Para concluir a passagem deles pela sala de embarques de Guarulhos, um cinegrafista vem e, câmera na mão, pergunta á guia quais são as expectativas. Esta responde que serão experiências excelentes e que tudo será comandado por Deus. Uma senhora se dirige para a fila dizendo às amigas: “Minina, você precisa ver os louvores que ele gravou!”. Paz!

3. Duvido que algum de vocês já rodou uma regressão em cima do Oceano Atlântico! Pois é, nessas situações em que não se tem nada para fazer e a perspectiva de horas a fio dentro dessa lata de sardinha aérea, o que resta a nós, economistas? Reg logsal educ! Clássico, né? Muito significativo...

4. Os brasileiros são bem egoístas. Entrei no Boeing 747 da British Airways e me dirigi ao assento marcado. Era o do meio, entre o corredor e a janela. No corredor, estava assentada uma asiática que começou a puxar papo e disse que estava “on her way back to Hong Kong”. Pensei: se ficarmos só nós, eu e a japoranga, e o assento da janela vazio, vai dar samba. Eu mudo pra janela e ficamos com o do meio livre. Todavia, quando penso que não, um inglês careca e malcheiroso se assenta ao meu lado. Matutei: não vai dar samba nem fudendo. E comecei a olhar no avião se havia algum lugar livre melhor que aquela prosaica mediação entre Oriente e Ocidente. Havia, e foi a asiática que me disse: “A good place for you”, dando aquele sorriso constante que os asiáticos têm quando falam. Levantei e fui perguntar, em inglês, à aeromoça se podia trocar. Ela me reprimiu, em bom português, dizendo que deveria permanecer sentado, pois os procedimentos de decolagem ainda estavam em curso. Assim que os sinais luminosos se apagaram, levantei e corri para o lugar vazio, um assento de corredor. À janela, uma brasileira. Coitada, estraguei o dia dela. Tentou a todo custo demover-me de sentar no corredor, já que ela não poderia deitar mais. Mas nós teríamos o meio livre, ora bolas. Ela, então, alegou que o seu assento era, de fato, o corredor e que se mudara para a janela só porque não havia ninguém. Eu disse, então: “Eu sento à janela!” Na verdade, disse “na janela”, mas, em honra ao bom português, “à janela”. Coitada, ela não esperava que eu estivesse tão disposto. Avisou-me: “o assento da janela não inclina”. Ao que respondi: “Não há o menor problema! Eu não durmo mesmo! Qualquer coisa, encosto na janela.” Chamamos a aeromoça para ver qual era o problema com o assento, que realmente não inclinava. Achei que minha rival estivesse jogando verde pra ver se colava e eu desistia, mas quem roda regressão a milhares de pés, não perde fácil uma batalha. A pilantra da aeromoça, que sabe português, disse: “Gente, o que posso fazer aqui em cima é: zero! O engenheiro de vôo não veio!” Lacônica e mordaz. A mulher ao meu lado acabou tendo de se resignar, apesar de ver seu sonho dourado de três lugares só para si se desmoronar em um segundo, quando larguei minha nobre mochila sobre o assento. O povo é muito egoísta! Mal sabia ela que um marxista ia chegar pra forçá-la a coletivizar seu espaço... O bom velhinho ia ter orgulho de mim! Mas a mulher acabou cedendo, afinal de contas, melhor eu que um inglês gordo, uma italiana decrépita, “um preto norte-americano forte com brinco de ouro na orelha” (como diria Caetano) ou um casal com criança berrenta. Aí acabou me contando que mora na Turquia, é de Cuiabá. Cuiabá existe, não é como o Acre! E perguntei se lá é realmente quente como aparece no Jornal Nacional e ela disse que é, mas não gostou da pergunta. Algo como perguntar a um africano: é verdade que o povo lá na África está morrendo de AIDS? Saímos da zona de turbulência e agora posso ir ao banheiro. Será que os crentes tão louvando uma hora dessas?