Olá, blogueiros! Então, após uma pausa, volto a fazer algumas observações no nosso blog.
1. No setor de imigração alemão. Todos sabemos das burocracias que uma viagem ao exterior, principalmente quando se trata de um não-europeu – aqui um não-europeu, em certos quesitos, é algo parecido com o que a bíblia chama de “fariseu”. Tanto os que vieram para cá quanto os que nos acompanharam na luta do DRI sabem desses percalços. Eis que o consulado alemão me diz no início do ano que é possível viajar sem visto para a Alemanha e resolver todas as formalidades aqui. Pensei: “Quando a esmola é muita, o santo desconfia...” Mas, com tanta coisa para resolver nas minhas prolongadas férias do meio deste ano, resolvi deixar o pau quebrar aqui. E ele se estraçalhou! Nem tanto, mas vamos lá. Quando fui me registrar (anmelden) como morador perante a Cidade de Mainz, tive, é claro, de mostrar meu passaporte. A primeira pergunta da funcionária – uma gorda alemã de meia-idade (quase idade-inteira), loira, de cabelo cacheado: “Onde está seu visto? (Wo ist Ihr Visum?)” Eu disse: “Eu não tenho! (Ich habe keins!)”. Pensei: eu já sabia! E fiquei olhando para a mulher, esperando a reação. Afinal, era obrigação dela saber o que os consulados decidem por aí. “Mas como você entrou na Alemanha? (Wie sind Sie eingereist?)”. Tive vontade de responder: “Ah, minha filha, tem coisas que o dinheiro não compra, mas pra todas as outras existe MasterCard! Você acha que eu, LFBC, ia correr atrás de visto? Subornei o fiscal da imigração!”. Mas me controlei... Como eu entrei?? Será que ela pensou que eu era um fenômeno holográfico? Ou que tinha de fato nadado até o Mar do Norte?? Como eu entrei! Entrei entrando, ué! O carimbo estava lá: Frankfurt, dia 12/10. Respondi: “Eu entrei sem visto. No Brasil, o consulado alemão me informou que a partir de agora, nós podemos entrar sem visto e resolver tudo aqui.” (keine Übersetzung nötig). E ela: “Mas como você entrou, se você precisa de um visto! (Wie sind sie überhaupt eingereist? Eigentlich brauchen Sie ein Visum!)”. Aí não tive dúvida. Ela estava pensando que eu vim no bagageiro do avião ou coisa parecida. Como eu estaria ali, na frente dela, se eu não posso entrar no país sem visto??? Mas aí vemos a essência do pensamento alemão: o descumprimento de uma regra é algo tão grave e inimaginável que ela pôs em dúvida o fato de que estava ali, ou seja, eu não podia estar ali. Eles não cogitam uma mudança da regra, cogitam, antes, uma alteração da realidade. E é uma realidade palpável, muito embora em desacordo com uma (suposta) regra. Portanto, foda-se a realidade palpável: ele está aqui; mas como ele precisa de um visto, o fato de ele estar aqui, ter entrado no país e ter um carimbo no passaporte não tem tanta importância. Eu fiquei calado. E ela custou muito para raciocinar que, se eu estava ali (FATO), é porque provavelmente a REGRA estava errada e não era o fato de eu estar ali que deveria ser questionado. Ela olhou para a colega do lado, a colega do lado também não sabia. Falou: “É, precisa de visto, sim. Você está aqui como turista?” Ela já começou a abrir o leque, já foi um progresso. Eu: “Não, para fazer faculdade!”. Não deu outra: “Mas aí você precisa do visto!”. Fiquei calado. E reinou um certo clima de que eu tinha que desaparecer, para essa incongruência acabar. Até que a gorda teve a idéia de que alguma regra poderia ter mudado. Ahá! Telefonou para sua colega do departamento de estrangeiros e a mesma a informou de que, sim, brasileiros podem agora entrar sem visto.
2. No museu do chocolate. Apesar das recomendações contrárias da Tete, o museu estava no programa da excursão de Colônia. Enfim, não descreverei as diversas etapas da produção do chocolate, nem a risível estufa que montaram lá, para o europeu sentir o ambiente onde cresce o cacau. Algumas curiosidades interessantes, outras mais bobas. Mas Luiz Felipe Bruzzi Curi Atraidor de Polêmicas tinha que, em meio a essa ingênua visita, encontrar alguma coisa para se preocupar. Entre embalagens antigas de bombons e cartazes de propaganda retrô, vi, meio escondido num canto, um pôster: O cacau e a escravidão, com um mapa das rotas nossas conhecidas. Pensei: olha, uma coisa interessante no meio da futilidade. Pus-me a ler. Falaram dos sofrimentos dos escravos que trabalhavam nas produções de cacau, deram umas descrições do tráfico negreiro e das formas de trabalho forçado – até aí, tudo certo. Fui lendo e cheguei ao gran finale (reproduzo as idéias, claro, não me lembro das palavras: É uma história de sofrimento, mas hoje em dia dificilmente se lembra disso, não é? Afnal, quem se lembra de tanto sofrimento ao morder um chocolate? Li de novo, era aquilo mesmo. É muita hipocrisia, não? Falar que comer um pedaço de chocolate faz esquecer toda uma história de exploração. É demais. Dá desânimo nessas horas, mas ao mesmo tempo orgulho de ser brasileiro e de portanto saber que o mundo não é da forma que uns crêem que seja.
3, Máquina de lavar. E o medo de lavar minha capa de edredom listrada com as roupas brancas? Foi-me dito que não posso misturar roupas brancas com não-brancas. Mas praticamente não tenho roupas 100% brancas! E a roupa de cama e branca com listras azuis. Aí chegou o dia, tive que arriscar. Coloquei tudo na máquina e quase fui à igreja acender uma vela para minhas cuecas brancas não ficarem azuis. Cuecas, meias e blusas... Agachei-me em frente à máquina e colei a cara no vidro. Comecei a ver aquele emaranhado de roupas girando, a água caindo, fiquei tentando identificar algum fluxo de tinta, se a água estava meio azulada, mas nada. Estava tudo apenas úmido e girava, girava, girava: tenho a impressão que aquilo ali não lava direito não, dá uma lavadinha. Como que esfrega? Alguém abriu a porta da sala das máquinas e imediatamente fiz que catava alguma coisa no chão e levantei num reflexo, movido pela inteligência que o corpo possui para identificar situações ridículas. Cumprimentei a pessoa e saí. Quando voltei, minhas roupas estavam todas em cima da máquina! Uma PUTA queria usar a máquina e tirou minhas roupas de lá. Nossa, não tem coisa mais irritante que chegar para pegar sua roupa e ela estar em cima da máquina. Fico pensando: onde a pessoa colocou a mão antes de pegar na minha roupa? Imagina se tiver acabado de cagar... Uma sensação terrível de Cohab. Muito contrafeito fui conferir se havia manchas. Não, pelo menos isso! As listras não foram suficientes e eu não fui obrigado a antecipar o Carnaval.
4. Um link interessante que nosso amigo Serra me mandou: http://www.economist.com/displayStory.cfm?story_id=14845197&source=most_commented . Ele estava – é claro – radiante de felicidade. Eu tenho lá minhas críticas e questões, mas vale a pena ler.

