Primeiro, feliz ano-novo, Tete! Herzlich willkommen in Deutschland! E continue contando histórias como essa! Não quero vc precise passar por aventuras assim todos os dias, mas ri às pampas...
Toda vez que programamos uma viagem aqui em casa, meu pai tem costume de falar: "Viajar é muito cansativo." E eu sempre concordo, mas respondo, à maneira dos portugueses: "Navegar é preciso." Esses dias, em que estou começando a cair na real que vou empreender uma viagem dessa magnitude depois de novamente ter deixado crescerem raízes aqui em terras tupiniquins, tenho pensado se não era melhor ter usado a grana para ir uns dias ao Rio ter guardado o resto: afinal, grana é uma coisa que por mais que guardemos, sempre precisamos dela.
Mas, ao mesmo tempo, que fazer senão viajar? Pelo menos para mim, a maneira de perceber um pouco melhor o que é ser brasileiro foi ir lá fora e me ver num ambiente completamente estranho, ter que explicar para todos que Belo Horizonte é perto do Rio de Janeiro e que no Brasil futebol é, sim, muito popular, mas eu não sou bom. Gente, vcs não imaginam o que é chegar à Alemanha um rapaz de seus 17 anos, indo morar num pequeno Dorf (povoado) onde a principal diversão da moçada era jogar bola, tendo um irmão que é fanático por futebol (conhecedor de muitos jogadores brasileiros que o rapaz não conhecia). Agora pensem que como diria Murphy, tudo pode piorar: a condução para o campo de futebol era feita de bicicleta - e o mancebo de 17 anos NÃO sabia andar de bicicleta. Como eu poderia explicar que não era bom em futebol e que, de quebra, não sabia andar de bike? Quanto ao último aspecto, das duas uma: ou no Brasil, realmente anda-se de cipó, ou o garoto não teve infância...
Meu irmão alemão mesmo me falou, um tempo depois, quando já éramos amigos, que, de fato, ele pensou: PUTZ, que espécie de brasileiro é essa, que veio aqui!? Ele sinceramente achou que ia dar merda, que não íamos nos entender. Mas aí eu pensei (claro que não de uma vez, mas aos poucos): para eles me entenderem, eu tenho que dar um jeito de falar a língua deles. E comecei a conversar, a ler jornal, comprei um dicionário - e a galera começou a entender que brasileiro pode não ser bom em futebol, mas ser bom em alemão. E eu fui aprendendo a gostar cada vez mais daquela língua que me parecera difícil de aprender e daquele povo que, embora eu admirasse de longe, me havia parecido estranho à primeira vista. No final das contas, a galera percebeu que brasileiro pode não ser bom de bola, mas ser bom de papo, bom em história, bom em simpatia (isso era esperado, tá certo).
Falo isso porque meu caso foi uma frustração completa de estereótipos: e isso foi muito importante, porque eu pude perceber que a minha "brasilidade" ia muito além do futebol que eu infelizmente nunca soube jogar, e do samba que eu, embora adore escutar, nunca soube dançar nem tocar. A brasilidade era simplesmente uma coisa minha, um pertencimento a um lugar geográfico-cultural que incidia sobre mim de maneira especial: eu descobri que ser brasileiro é ser a pessoa que eu sou. Parece sem lógica, mas para mim fez um certo sentido.
Não poderia deixar de comentar também a forte mentalidade colonial que temos: galera, não se iludam, somos PERIFERIA. E, como o mosqueteiro Dartagnan tinha de ir para a corte, nós temos de ir para os centros culturais aos quais nossa civilização é ligada. Resta-nos, sem dúvida, um ranço da necessidade dos letrados da Colônia de mandar seus filhos estudar em Coimbra porque aqui a educação era fraquíssima. É até hoje. Mas esse ímpeto de ir para fora pode se traduzir em coisa muito boa, penso eu, porque podemos descobrir que nossa identidade brasileira não se resume a pequenas coisas: percebemos que existe, na periferia que reconhecemos ser, um mundo diverso do de lá. Um mundo em que música, poesia, literatura, língua, comportamento, jeito de ser - têm lógicas próprias, ainda que influenciadas.
A experiência na Alemanha me ajudou muito a entender de forma mais madura o que é ser brasileiro e me mostrou que valia a pena insistir nessa ideia. Conhecer melhor o Brasil, em todos os sentidos, passou a ser uma coisa que me orienta em várias das coisas que faço. Acho que passei a ver com mais respeito aquilo que antes eu achava banal: música, por exemplo. Eu, que nunca toquei um instrumento, não imaginava a falta que iria me fazer ouvir música brasileira. Isso sem falar em coisas do cotidiano que, depois de uma experiência lá fora, passamos a perceber como verdadeiros traços culturais: saudações, despedidas, formas de se relacionar.
A frase inteira dos antigos navegadores, que Fernando Pessoa cita, é: "Navegar é preciso; viver não é preciso." Do meu modo, eu digo que é preciso viajar (navegar) para transcender a mesmice da nossa vida: viver lendo as notícias mais lidas no Brasil não é preciso. A vida se torna muito banal desse jeito: ir além é preciso...
02/01/2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário