Queria continuar um pouco a conversa sobre política aqui em BH, mas não tive a oportunidade - e veio a idéia da música. Entonces, agora aproveito para retomar um pouco a discussão dos partidos e prefeitos, para a qual o Tennn deu a última contribuição.
1. Partidarismo. A questão da aliança não é, em si, o problema. O que me parece um problema é muito mais seu objetivo e a forma pela qual ela foi costurada. O objetivo pareceu claramente ter sido o de alavancar politicamente dois líderes mineiros: Aécio Neves e Fernando Pimentel. A forma como foi construída a aliança também não me agradou, tendo em vista que diversos setores do PT, por exemplo, foram contrários a ela: portanto, não foi aliança que respeitou a democracia de cada partido. Sobre os partidos, então. Claro que não se pode rotular um político simplesmente pelo partido a que pertence, mas isso, em democracias representativas maduras, tem de ter um peso considerável. Um político deve satisfação primordialmente a seus eleitores, mas os projetos e idéias que representa - e a democracia é baseada em idéias - consubstanciam-se no partido do qual faz parte. Não creio que seja impossível que partidos diferentes aliem-se, desde que conservem suas diferenças e aparem as arestas naquilo que for possível uma aproximação. Tomem como exemplo a "Große Koalition" (Grande Coalizão) na Alemanha: os dois principais partidos do país CDU (centro-direita) e SPD (centro-esquerda) viram-se obrigados a se aliar para garantir a governabilidade do país sob a chanceler Angela Merkel (CDU). A aliança parece estar funcionando, mas as pessoas não mudam de partido: deputados não passam de CDU para SPD, nem vice-versa e - o que é mais importante - os eleitores na Alemanha escolhem os partidos, e não os candidatos. Portanto, a eleição entre SPD e CDU foi condicionada pela vontade popular que optou, por meio do voto, por uma composição parlamentar em que uma aliança seria necessária para governar o país. Percebam a diferença: lá, é o povo que determina a aliança, enquanto aqui a aliança foi uma candidatura articulada anteriormente, apresentada ao povo. O problema maior parece estar mesmo no nosso sistema político. Mas vejam outra diferença importante: na Alemanha, o debate de idéias entre CDU e SPD acontece - existem projetos distintos, elaborados há anos, entre os quais a população pode dedicir. Aliança não significa unificação de discurso, nem anulação do debate de projetos. É importante que exista para a democracia a possibilidade de escolha entre projetos.
O contrário disso, vejam bem, é o populismo. Se levarmos às últimas conseqüências o raciocínio de que a pessoa do candidato importa mais que seu partido ou do que seu posicionamento (direita ou esquerda), cairemos num personalismo absurdo. Quem são pessoas apartidárias, que procuram vender-se como "o que importa sou eu" e que têm a carreira política baseada na própria imagem? Lula, por exemplo. Nosso presidente é um exemplo claro de traição às idéias defendidas e ao partidarismo: fala-se abertamente hoje em lulismo, e com razãõ. Quem elegeu Lula elegeu um projeto, que não foi cumprido. E a legitimidade do presidente hoje é garantida com base na sua imagem pessoal. Ainda que haja méritos do governo Lula, não acho que o personalismo seja um deles, pois castra o debate democrático e faz com que o povo não discuta idéias nem projetos, mas, sim, seduza-se pela imagem pessoal dos políticos. Os partidos são a forma de tornar a atuação política algo menos pessoal e mais centrado em projetos, em ideais - trocando em miúdos: em determinadas escolhas, em certas opções. Não que todo tucano tenha de ser contra o aborto, mas trata-se de garantir que o voto não está sujeito ao bel-prazer do político: se ganhar, ele fará o que bem entender? Não, pois há um conjunto de idéias que o orienta. A ausência total dos partidos, o que é? O personalismo, que dependendo das condições de temperatura e pressão, pode chegar a uma ditadura personalista. Vargas? Lembram-se? Apoiar a democracia significa, na minha opinião, apoiar projetos - e não um líder em si. Os líderes podem ser grandes estadistas e operar mudanças consideráveis, mas nunca pelo simples fato de serem carismáticos: se há apenas carisma, temos casos parecidos com os de Lula e Chávez, sendo que no caso da Venezuela a democracia é bem menos sólida do que no Brasil, o que dá margem ainda maior para o personalismo. Trata-se, então, não de submeter um político a um "rótulo", mas de votar em idéias e projetos, e não somente em pessoas.
2. Direita e esquerda. Parece haver muita indefinição no mundo pós-Muro de Berlim no que se refere à linha divisória entre direita e esquerda. Esta linha, que já foi muito clara, tem sua própria existência questionada. De fato, num mundo homogeneamente capitalista, não faz muito sentido dizer que é de esquerda quem se aproxima do socialismo e da revolução (URSS) e de direita quem se aproxima das políticas conservadoras. O socialismo e a revolução não são, hoje, as mesmas alternativas que já foram um dia. Para mim, no entanto, faz sentido a distinção entre direita e esquerda, desde que à luz dos novos tempos. Retomo a origem dessa divisão: na Assembléia Nacional francesa, à esquerda sentavam-se os jacobinos, mais ávidos por mudanças e mais radicais; à direita, tinham assento os girondinos, também revolucionários, mas menos afeitos a mudanças radicais. Para mim, ser de esquerda na política hoje em dia é ter consciência das injustiças existentes e trabalhar para que sejam minoradas, não de forma paliativa, mas de forma consistente e definitiva. É não ignorar que há explorados e exploradores e que é preciso agir de forma rápida, objetiva e efetiva para diminuir a diferença - em termos de eqüidade sócio-econômica principalmente - entre esses dois extremos, caso contrário todos sairão perdendo. Ser de esquerda para mim é, acima de tudo, não ser ingênuo: é não perder a capacidade de fazer crítica e autocrítica. Talvez a própria esquerda discorde da minha concepção de esquerda...
15/11/2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário