12/08/2008

Personagens Ilustres da FACE

Galera, vamos começar as discussões! Acho que algo que muito nos tem inquietado e intrigado é a presença de certas pessoas na nossa faculdade. Pessoas que fazem parte do nosso dia-a-dia, sobre as quais, no meio do turbilhão da vida, acabamos não tendo a oportunidade de pensar. Começarei com a famosa, famigerada e onipresente MULHER DO CORREDOR, na esperança de que vocês dêem continuação a essa nobre discussão.

A MULHER DO CORREDOR
(fr. La femme du couloir, en. The woman of the corridor, al. Die Frau des Gangs)

A mulher do corredor é onipresente. Qualquer caminho que você tome dentro desta faculdade, pode ter certeza que topará com ela em algum momento - ou melhor, que ela estará observando você de algum ponto, ainda que este ponto não esteja ao alcance da sua vista. O andar da mulher do corredor é tranqüilo: ela jamais tem pressa, porque parece ter a situação inteiramente sobre controle. Nada a afeta. Ela mantém sempre sua marcha - contínua e ritmada - por sobre os ladrilhos de cerâmica. Seu andar não faz barulho: ela simplesmente surge, silenciosa - parece que já sabia que eu estaria ali naquele momento.

A aparência física da mulher do corredor é constante. Sempre o mesmo uniforme, sempre as mesmas mãos para trás, sempre os mesmos cabelos presos num coque. Parece ter uma imensurável indiferença com relação ao mundo que a cerca: não que seja uma indiferença má - a mulher do corredor certamente está acima do bem e do mal-, mas de uma indiferença de quem parece ter certeza que boa parte do cabedal de teorias e empirias que se estudam nesta renomada faculdade é uma boa dose de discussão prolixa, de tergiversações incoerentes acerca de assuntos ora específicos demais, ora tão abrangentes que caem numa abstração ininteligível. Com seu andar hirto e silencioso, sua face impassível e terrivelmente atenta, a mulher do corredor zomba da nossa pretensa sabedoria.

De onde teria vindo a mulher do corredor? Não sabemos nada sobre ela. Aliás não pretendo saber. Há pessoas cuja presença é suficiente para termos ciência de que não devemos perguntar coisas indiscretas. A mulher do corredor decerto não revelaria suas origens, mesmo que algum insolente ousasse perguntar. Só resta a nós - reles mortais , portanto, especular. Pela tez mulata, deduzo que a mulher do corredor não deve ser de bandas distantes das nossas - pode ser que tenha vindo d'África. Aliás, algo me diz que seja neta de alguma dessas feiticeiras antigas, dessas catimbozeiras que fumavam cachimbo no terreiro das fazendas e que até o mais cruel senhor de engenho respeitava, receoso daquilo que poderia advir se a contrariasse. A mulher do corredor, então, deve ter aprendido com a avó a arte das cartas, das advinhações, das ervas, tornando-se uma aprendiz dessas ciências ocultas que os homens de razão desprezam mas que sempre suscitam algo entre a curiosidade e a dúvida. Com todas as intempéries da vida, a mulher do corredor foi, então, forçada a vir para a cidade. No entanto, iniciada nos mistérios das ciências da velha avó, não perdeu seu tino - e continua por aí, a nos observar.

Não digo que ela nos persegue, mas em casos de pessoas misteriosas como é a mulher do corredor, prescrevo cuidado. Nunca é demais um olhar simpático - quando temos a sorte de identificar o ponto do qual ela está observando. Não que ela possa se contrariar se formos mal-educados: a mulher do corredor não se contraria. Ela não se deixa afetar por essas frivolidades mundanas. Se você insultá-la, tenho certeza de que continuará andando, passo após passo. Mas não acho que será bom para você que a mulher do corredor imagine que você escorregará naquele resto de areia, subindo a escada do estacionamento, e enfiará o queixo no concreto quente. Não que isso vá acontecer, mas não me agradaria de forma alguma se a mulher do corredor pensasse isso de mim.

Por hoje, é isso. Aguardo mais opiniões sobre a mulher do corredor e sobre essa legião de pessoas pitorescas que nos circundam.

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